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REGULAÇÃO EMOCIONAL: QUANDO A IGNORÂNCIA NÃO É UMA BENÇÃO




Às vezes, quando estamos para baixo, sentimos vontade de desligar nossas emoções. Por outro lado, quando estamos nos divertindo, gostaríamos de aumenta-las e tornar aquele momento único! Nem sempre conseguimos agir de acordo com aquilo que pensamos e queremos, e por vezes, quando estamos sob influência de fortes emoções, podemos fazer coisas que podem nos causar arrependimento no futuro. Você já pensou se pudéssemos perceber antes de agimos por influencia de emoções? Será que isso evitaria o arrependimento?Acho que tenho uma boa notícia para dar, mas primeiro, vamos entender um pouco mais sobre as emoções e como podemos conviver com elas.


As nossas emoções


As nossas emoções influenciam (e às vezes até demais) na forma como nós percebemos a vida. Elas marcam presença nos nossos relacionamentos pessoais, no trabalho e em tudo aquilo que nos interessa. Quando estamos vivendo um momento importante, sem dúvida estamos sob a influência de alguma emoção, e quando decidimos fazer alguma atividade ao invés de outra fomos devidamente sugestionado por elas.


Você deve estar se perguntando: e quando as emoções acontecem? Alguns estudiosos do tema dizem que elas ocorrem o tempo inteiro, mas às vezes elas têm uma intensidade tão baixa que chegam a ser imperceptíveis. Outros, afirmam que são reações aos eventos que acontecem e têm significado para nós, mas também podemos nos emocionar enquanto pensamos ou lembramos de algo importante. Seja como for, sentimentos sempre estarão presentes conosco ao longo da vida, então é melhor que aprendamos a viver com eles.


Regulação Emocional


Regulação Emocional tem a ver com estratégias que adotamos para manejar essas emoções enquanto elas estiverem acontecendo. Sendo assim, podemos: diminuir, manter ou aumentar o que sentimos de acordo com nossos objetivos em relação à situação.


De acordo com as pesquisas, é muito comum adotar estratégias para diminuir as emoções negativas. Quando estamos tristes, por exemplo, enxergamos a tristeza como o grande vilão da história, e tentamos acabar com ela a todo custo. Só que às vezes isso significa adotar estratégias desadaptativas que são capazes de fazer isso a curto prazo, mas podem nos causar problemas à longo.


Veja o exemplo de Luiz, ele tinha acabado de terminar seu namoro com Júlia e sentia angústia e tristeza muito fortes, chorava durante o dia e tinha dificuldades para dormir. Por vezes, se culpava pelo fracasso da relação, afirmando ser “inútil”. Começou a sair muito com os amigos e quando saía costumava beber até “ficar anestesiado” e não pensar em Júlia.


Em outra situação, temos Wilma, uma advogada que acabara de ser demitida da empresa que trabalhava por motivo de corte de gastos. Wilma também se sentia triste e preocupada em como faria para pagar suas contas a partir de agora. Nos primeiros dias, após seu desligamento, ela teve certa dificuldade em lidar com o ocorrido, porém Wilma compreende que tudo isso aconteceu devido a um problema que estava além do seu alcance e então decidiu atualizar seu currículo e começar a procurar empregos em sites especializados.


Embora as situações sejam diferentes, podemos observar nesses dois casos que há duas formas de enfrentar o problema. Uma delas envolve evitar pensar nele fazendo uso de álcool para não sentir tristeza, enquanto a outra forma se configura em aceitar o fato e entender que esses sentimentos são válidos, tendo em vista o que aconteceu. Em ambos os casos ocorre uma situação inesperada que promove mudanças no dia-a-dia. e agora será necessário adotar novos comportamentos mesmo com a incerteza do futuro.


Existem diferentes estratégias...


Existem diferentes estratégias que usamos para regular nossas emoções, sendo elas conscientes ou não. Algumas são mais indicadas para alguns tipos de situação, enquanto outras podem nos causar mais mal do que bem. As principais são dividas em antecedentes e focada na emoção.


As antecedentes são formas de prever e avaliar as repostas emocionais (geralmente antes de uma emoção estar ativada), para diminuir ou tornar aceitável a intensidade da emoção quando ela estiver em curso. Essas estratégias são capazes de mudar o significado das situações tornando mais fácil de compreender o que acontecerá depois. No exemplo citado, Wilma compreende e aceita suas emoções e é capaz de avaliá-las como “normais” devido ao que aconteceu, agora ela busca soluções (comportamento) para tentar amenizar seus problemas, o que pode ser considerado útil e adaptativo, evitando que outras emoções negativas surjam em decorrência dessas.


As estratégias focadas na emoção são aquelas que usamos quando já estamos sob o efeito da emoção. Essas costumam ser menos eficazes em diminuir a intensidade e geralmente (há exceções) podem causar problemas no futuro. Retornamos ao caso de Luiz, onde ele buscava a toda forma evitar sentir a angustia provocada pela falta de Júlia. Ele bebia excessivamente quando saía, vivia cercado de pessoas e raramente ficava sozinho. Quando pensamentos sobre ela surgiam em sua mente, Luiz tentava suprimi-los, assim como a tristeza que estava sentindo. Apesar das duas estratégias serem úteis para ambos naquele momento, Wilma tem menos chance de sofrer de algum problema futuro em relação a isso e é provável que sinta emoções positivas quando encontrar um novo emprego (e deixe de sentir as negativas). Porém Luiz possivelmente encontrará mais dificuldades no futuro, caso sofra com outro término de namoro, a julgar pela terrível experiência que teve (sem contar os danos que podem ser causados pelo abuso de álcool e outros comportamentos de evitação).


Quando a ignorância não é uma benção


Ao longo do texto, utilizamos os exemplos de Luiz e Wilma para ilustrar duas possíveis formas de lidar com as emoções, fazendo uso de diferentes estratégias. Vamos falar um pouco sobre as diferentes formas de lidar com as emoções.


(...) é essencial aprender a diferenciar uma emoção da outra (já que cada uma tem características próprias), saber nomear as emoções corretamente com base nessas características e também expressá-las corretamente.

O aprendizado das estratégias de Regulação Emocional se inicia na infância. Nesse momento. é essencial aprender a diferenciar uma emoção da outra (já que cada uma tem características próprias), saber nomear as emoções corretamente com base nessas características e também expressá-las corretamente. A consciência das emoções na fase adulta é uma habilidade que precisa ser desenvolvida.


Muitas pessoas têm dificuldade em diferenciar uma emoção de outra, enquanto outras possuem crenças negativas acerca de suas próprias emoções. Por exemplo: quantas vezes não ouvimos dizer que chorar é demonstrar fraqueza? Sabemos que existem aspectos culturais que devem ser levados em consideração e que a cultura varia de um lugar para o outro.


A psicoterapia ajuda a perceber melhor quando as emoções estão surgindo, ajuda a desenvolver o manejo dessas emoções e também promove a utilização de estratégias de autorregulação eficazes. Ter consciência de que nossas emoções são nossas aliadas e saber como conviver bem com elas é possível, faça psicoterapia e esteja bem com seus sentimentos.


Para saber mais...


Gross, J.J. (2002). Emotion regulation: Affective, cognitive, and social consequences. Psychophysiology 39(1), 281–291.


Gross, J. J. (2013). Emotion regulation: Taking stock and moving forward. Emotion, 13(3), 359–365.


Koole, S. (2009). The psychology of emotion regulation: An integrative review. Cognition and Emotion, 23(1), 4–41.


Damásio. A.R. (2012). O erro de Descartes: Emoção, razão e o cérebro humano. 3ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras.


Mocaiber, I., Oliveira, L., Pereira, M. G., Machado-Pinheiro, W., Ventura, P. R., Figueira, I., & Volchan, E. (2008). Neurobiology of Emotion Regulation: Implications for Cognitive-Behavioral Therapy. Psicologia Em Estudo, 13(3), 531–538.


Vaz, F. M., Martins, C., & Martins, E. C. (2008). Diferenciação emocional e regulação emocional em adultos portugueses. Psicologia, 22(2), 123–135.


Leahy, R.L. (2013). Regulação Emocional em Psicoterapia: um guia para o terapeuta cognitivo-comportamental. Porto Alegre: Artmed.



Sobre o Autor


Richard S. Ferreira


Psicólogo, graduado pelo Centro Universitário Celso Lisboa. Pesquisador nas linhas de Regulação Emocional, Funções Executivas, Percepção do Tempo e Avaliação Psicológica e Adaptação Cultural de Instrumentos de avaliação.


E-mai para contatol: psi.richardsferreira@gmail.com

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